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Ele era também um rapaz Latino Americano

Antônio Carlos Belchior saiu de cena muito antes de sair da vida. Sua divina tragédia o içou praqueles prólogos sublimes de artistas que misturaram a vida real e a obra, por muitas vezes indissociáveis. Do ponto de vista artístico, para nosso fetichismo, uma trajetória fantástica. Nos últimos dez anos, porém, Belchior viveu um auto exílio acumulando dívidas imensas e sendo procurado pela polícia. Aliás, sendo procurado por todo o seu público, pela imprensa e pela própria família, vivendo recluso e de favores em casas de fãs e até numa instituição de caridade no RS, sem manter contato ou vínculo algum com as pessoas mais próximas (incluindo ex parceiros de trabalho e produtores). Sugeriram, inclusive, que tudo isso poderia ser uma grande jogada publicitária – o que não condiz com um artista que produzia incansavelmente até os anos 2000, chegando a fazer três shows por noite em alta temporada. Muito menos, porque ao longo desses dez anos, a suposta jogada publicitária lhe imputou imensos prejuízos financeiros e legais.

Não estou interessando em nenhuma teoria

Sob a alegação de se dedicar à pintura e a uma tradução de a Divina Comédia de Dante Alighieri em meados de 2007, o desaparecimento do Belchior se tornou uma lenda cult no Brasil. O cantor disse à repórter Sonia Bridi, quando foi encontrado no Uruguai em 2009 no auge do seu desaparecimento, em uma matéria ao programa dominical Fantástico, que realmente não se interessava pela vida privada de ninguém – demonstrando imenso desconforto com o interesse da imprensa por seus problemas pessoais, que incluíam seu desaparecimento e as inúmeras dívidas acumuladas pelas estadas em hotéis que ele não pagava. Mas é muito difícil que não façamos as nossas teorias, principalmente pela empatia e louvação a sua figura histórica e sua importância na música popular brasileira. Evidentemente, um artista do quilate de Belchior, dono de sucessos como Alucinação, Medo de avião, Paralelas, Apenas um rapaz latino americano, A palo seco, Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida (essas duas últimas eternizadas na voz de Elis Regina), ganhará alguma biografia num “momento propício”, e curiosidades virão à tona para sanar o desejo de carnificina dos fãs. Nesse texto, sem muito roteiro e sem saber exatamente onde quero chegar, nauseado talvez por esse ímpeto andante do rapaz latino americano, tento organizar minhas teorias e acalmar minha ânsia que essa triste coincidência de sua morte, acachapando o momento social que vivemos no Brasil de sinal fechado para nós, me causou.

E as paralelas dos pneus n’água das ruas são duas estradas nuas em que foges do que é teu

Entre dívidas acumuladas e processos judiciais perdidos, o cantor tinha dois mandados de prisão por não pagamento de pensão alimentícia movido por sua ex mulher Ângela e por uma mulher com quem teve uma filha fora do casamento. Mandados que o obrigavam a viver recluso em Porto Alegre por medo de ser preso. Seu ex secretário Célio também moveu um processo trabalhista, em que Belchior perdeu sem nem sequer se defender, no valor de 1 milhão de reais.

Tentativas de ex empresários e produtores para novos shows, com a promessa de Jackson Martins de quitar suas dívidas caso voltasse aos palcos, mostram a importância (inclusive comercial) do artista. Mas todas em vão. A General Motors, por exemplo, tentou um contrato publicitário com o cantor, aproveitando a popularidade virtual de seu sumiço, que ficou chateadíssimo com o teor da proposta. O comercial de um novo carro da marca, que teria como garoto propaganda Belchior, levaria o seguinte slogan dito pelo cantor: “Com o novo carro da GM, até eu voltava!”. Belchior, irredutível, não aceitou o contrato.

Entre os muitos relatos de amigos, nada é unânime. A maioria culpava a atual companheira, a artista plástica e produtora Edna Assunção, que ele conheceu em uma exposição de arte e com quem se juntou nesse auto exilio a partir de 2005, abandonando a esposa e os filhos. Pessoas próximas, parceiros de produção e familiares dizem que Edna era a principal responsável pelo comportamento estranho de Belchior, que passou a recusar sua agenda de shows e abandonou tudo o que tinha para se auto exilar com ela. Mas, contrariando essas versões, José Roberto Aguilar, artista plástico e amigo do casal, diz: “Edna não conseguiria sozinha virar a cabeça de alguém inteligente como Belchior. São dois sonhadores, juntaram suas utopias. Deixaram de acreditar neste mundo materialista, objetivo e mesquinho e partiram para um caminho de desapego”.

E se depois de cantar, você ainda quiser me atirar, mate-me logo

A utopia, no entanto, era tão ininteligível que em 2013 Edna contatou um jornalista gaúcho que nem conhecia, Juremir Machado, para dizer que o casal tinha um dossiê contra a Rede Globo. Entre acusações, como a pitoresca que dizia da tentativa de assassinato do cantor pela corporação, o casal apresentava comportamentos estranhos como se esconder atrás de pilastras dando a impressão de estarem sendo perseguidos (segundo a matéria “A divina tragédia de Belchior”, da revista Época em 2013). Mas apesar do alarde, na data marcada para o casal apresentar a suposta documentação que incriminaria a Rede Globo, desapareceram mais uma vez.

Belchior morreu no dia 30 de abril de 2017, aos 70 anos, em Santa Cruz no Rio Grande do Sul. Fazendo de suas letras uma autobiografia, o rompimento da artéria aorta nos trouxe o paradeiro do exilado cantor que recusou o sistema, os laços, o convívio, a carreira, as obrigações, e a própria figura de cantor. “Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho” não poderia fazer mais sentido. Rompeu como uma faca a carne dele mesmo, que independentemente de qualquer constrangimento moral, sem dinheiro no banco, como que sem parentes importantes, voltou ao interior de si mesmo recusando as conveniências da vida. A vida, essa que conhecemos nesse modelo que não é nada correta, branca, suave, nem muito limpa e nem muito leve. Mas não se preocupe com os horrores ditos nas canções, que a vida é muito diferente, a vida é muito pior. E a alucinação de Belchior, como já havia escrito, era apenas suportar esse dia a dia – e sabe-se lá quanto tempo ele suportou até o total exílio, sob a alcunha do brilhante artista. Nosso erro é esperar coerência demais, munidos da obra como testemunha de acusação (“óh, uma pessoa tão brilhante”), mas se esquecendo que o artista antes de tudo é um ser real. E talvez, em nosso modelo de idolatria se encontre um fetichismo maior com a desgraça alheia para novamente alçarmos o artista a um posicionamento martirizado que por fim é só nosso, intocável e cruel. Mas talvez, o que também julgamos como desgraça alheia, seja só uma maneira deformada de enxergar a vida naquilo que acreditamos ser certo. Realmente, quem vai poder julgar? É, talvez não fosse apropriado sacarmos a arma no saloon, pois ele era apenas o cantor.

Thiago Sagi

Thiago Sagi

Cantor e compositor, tem um disco intitulado Cancionar e é fã incondicional de Elis Regina. Quer chegar mais e conhecer o trabalho dele? Acesse www.saginova.com.br @saginovaoficial facebook.com/saginovaoficial

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Comentários

  • Neucir Magalhaes Martins

    Garoto, tu tá matando a pau. Texto Lindo, elucidativo. questionador,emocionado, sem pre-conceitos… “independentemente de qualquer constrangimento moral, sem dinheiro no banco, como que sem parentes importantes, voltou ao interior de si mesmo recusando as conveniências da vida. A vida, essa que conhecemos nesse modelo que não é nada correta, branca, suave, nem muito limpa e nem muito leve. Mas não se preocupe com os horrores ditos nas canções, que a vida é muito diferente, a vida é muito pior. ” LACROU Thiago

    • Thiago Sagi

      Neucir, obrigado por tudo! São anos, né?! E você ajudou muito, até ditando pro sobrinho! Lacramos, risos!

  • Esther Eugenia Martins

    ☆☆☆☆☆Maravilha de textos!

    • Thiago Sagi

      Obrigado, Esther! Gente, tenho leitores rs. <3

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