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Thirteen Reasons Why. A culpa é de todos, o sistema falhou!

Para entender os Treze Porquês de Hannah recorro a outra Hannah. Hannah Arendt (1906-1975) filósofa alemã de origem judaica, considerada uma das mais influentes do século XX, lançou em 1963 seu relato sobre a banalidade do mal após acompanhar o julgamento de Otto Adolf Eichmann (1906-1962). Eichmann é considerado um dos principais responsáveis por um dos capítulos mais sombrios da história da humanidade, o Holocausto. Durante seu julgamento era esperada a revelação de um verdadeiro monstro, no entanto, para a surpresa dos presentes e de todo o mundo que acompanhou o julgamento o acusado se revelou um ser humano medíocre, funcionário mediano e incapaz de refletir sobre seus atos.

Encontro razões também nas palavras de Zygmunt Bauman (1925-2017) sociólogo polonês, segundo ele a modernidade é “líquida” e as pessoas têm problemas em manter uma identidade por muito tempo, existe uma fluidez dessa identidade que se molda ao que lhe convém e dificulta relações sociais de longo prazo. O sociólogo argumenta sobre as redes sociais com a mesma perspectiva da “modernidade líquida”, tudo o que era sólido se tornou líquido,“nossos acordos são temporários, passageiros, válidos apenas até novo aviso”. Tudo que nos cerca nas redes sociais está a um clique de tornar-se outra coisa, amizades são desfeitas em um clique, apoio é retirado em um clique, dentre uma infinidade de coisas.

Você deve estar se perguntando o que esses dois pensadores perseguidos na juventude pelo regime Nazista têm haver com os 13 porquês da primeira Hannah citada no início do texto e te respondo, tudo!

Acompanhei o seriado e decidi falar sobre ele por vários motivos. Pela quantidade imensa de críticas que despertaram meu interesse, por ser um dos seriados mais comentados dos últimos dias, por ter consumido minhas preciosas e poucas horas de sono e por ter me deixado realmente chateado, resolvi escrever sobre Thirteen Reasons Why.

Não vou me preocupar em dar spoiler, o próprio título, toda campanha de marketing e os primeiros minutos da série já revelam, a trama é sobre o suicídio de uma adolescente, a primeira Hannah do texto. Com a exposição do assunto em um seriado, os ânimos se afloraram, li uma dezena de críticas ruins e notas de associações de psicólogos preocupados. A produção do Netflix dividiu opiniões tanto quanto o atual cenário político do país.

Em tempos de informação em velocidade 4G nos celulares e redes sociais “aproximando” milhares de pessoas, o mundo está conectado, as informações são transmitidas em tempo real e as relações sociais estão cada dia mais distantes. Neste contexto, que conecta e distancia as pessoas ao mesmo tempo, o debate sobre suicídio entrou de supetão no dia a dia das famílias por todo mundo. O que parecia um programa para adolescentes tornou-se uma trama bem amarrada, onde os últimos dois ou três anos da vida de uma jovem são narrados. Em meio a este enredo temos uma cena mais do que impressionante de suicídio, duas de estupro e o bullying escancarado por todos os episódios. Uma mistura indigesta que me fez refletir sobre o que tenho visto. Por ser licenciado em História e apaixonado por literatura, anualmente participo de uma banca avaliadora de produções literárias de adolescentes, no ano de 2016 fiquei realmente preocupado com o conteúdo produzido pelos jovens escritores, na grande maioria dos contos e poemas enviados, os jovens tratavam assuntos como solidão, sexo, ingestão de drogas legais e ilegais e suicídio.

A real dúvida é: devemos continuar tampando o sol com a peneira, fingir que o mal não está entre nós ou devemos encarar nossos problemas sociais de peito aberto. Uma produção não causaria tanto impacto se fosse meramente ficcional, ok, a transmissão da Guerra dos Mundos acabou evacuando cidades nos EUA, mas esse não é o objetivo de Thirteen Reasons Why.

Bullying não é assunto novo, apenas ganhou um nome diferente. Sexo, bebidas e drogas também não são novidade, mas o suicídio entre adolescente no Brasil para mim é coisa nova. A ferramenta que em tese serviria para aproximar as pessoas tende a traí-las, o mundo líquido de Baumman, onde tudo está em constante transformação e as relações sociais iniciam e terminam em um clicar de botão, onde são vazadas diariamente imagens pejorativas, de cunho sexual ou informações difamatórias. O anonimato das redes sociais, que quase sempre evita um conflito corpo a corpo, transformam todos em especialistas em todos os assuntos. Corremos sério risco de nos tornar semelhante ao ser humano medíocre e incapaz de refletir sobre seus atos. O ofensor no mundo digital está protegido por uma armadura de tela LCD ou LED. O mal está banalizado, as pessoas comuns fazem mal uma as outras todos os dias, mas a “modernidade líquida” parece banalizar tudo.

Quando uma pessoa chega a solução final, onde a batalha foi perdida, na ausência total de luz não precisamos de Treze Porquês. A realidade é que a culpa é de todos, o sistema falhou. A prova disso está estampada nas páginas de notícias que agora colocam o suicídio em pauta nos mostrando uma realidade assustadora. Baleia Azul é o novo desafio do momento, um jogo mortal com uma série de 50 tarefas que envolvem os participantes, que geralmente são pré-adolescentes e adolescentes, e que culminam com o suicídio do participante.

Não sou hipócrita, na minha trajetória escolar sofri muito bullying, mas também pratiquei, assim como na história de Hannah onde todos os personagens apresentam lados bons e ruins também convivi e convivo com essa dualidade. Mas a realidade que vejo hoje é sem dúvida mais preocupante. Precisamos falar sobre as redes sociais e precisamos dar mais atenção aos nossos jovens. Não tenho filhos, mas convivo com a rapaziada e a luz de alerta está acesa. Seriados como esse cumprem o seu papel, servem como gatilho para um debate profundo sobre temas considerados tabus, já passou da hora de mudar a forma como tratamos assuntos ácidos.

João Paulo Massi

João Paulo Massi

Formado em História e apaixonado por cinema e literatura, encontrou nos enredos da história referências para vida. @jpmassi

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